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O Que o Livro “Ensaio Sobre a Cegueira” Pode Nos Ensinar Sobre a Humanidade

Atualizado: 31 de Ago de 2018

O romance “Ensaio Sobre a Cegueira” foi publicado pelo renomado autor português José Samarago em 1995. Foi também graças a essa obra, considerada uma de suas mais sublimes, que ele conquistou o prêmio Nobel de Literatura três anos depois. O livro ficou tão conhecido que ganhou até mesmo uma versão nos cinemas em 2008, a qual foi dirigida pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles. Com uma narrativa fora do comum e a descrição de uma realidade fictícia absolutamente desconcertante, Saramago nos mostra do que o ser humano é capaz quando confrontado com uma situação de desespero e escassez.

Reprodução do filme "Ensaio Sobre a Cegueira" / Direção: Fernando Meirelles

Escolhi escrever sobre este livro, pois ele teve um grande impacto na minha vida. Recordei-me desse sentimento ao reler a incrível obra na semana passada depois de anos sem ter tido contato com ela. É inevitável refletirmos profundamente sobre a índole do ser humano e sobre a nossa própria existência ao nos depararmos com a situação chocante apresentada no livro. “O que eu faria se estivesse no lugar dessa pessoa?” é uma das perguntas mais recorrentes que somos obrigados a nos fazer durante a leitura.


A história do livro começa com um homem a gritar no meio de uma avenida movimentada, pois acaba de ficar cego dentro do próprio carro. O motivo da cegueira é desconhecido, visto que o rapaz não possui histórico de nenhuma doença que pudesse causá-la. Sua mulher decide levá-lo a um oftalmologista, e a partir de então, todos aqueles que têm contato com ele também passam a cegar misteriosamente. O governo descobre essa nova epidemia e decide colocar todos os cegos e os “contaminados” em quarentena. A partir daí, a sociedade e tudo o que conhecemos por “humanidade” começa a desmoronar.


As pessoas em quarentena são trancafiadas em um manicômio precário e deixadas à própria sorte. Comida é a única coisa que o governo se compromete a fornecer, promessa que acaba não cumprindo integralmente ao longo do tempo. Com escassez de comida, água, saneamento básico e higiene, os cegos acabam reduzidos às suas sensações e comportamentos mais primitivos. Em meio à derradeira luta por necessidades básicas, a única pessoa que ainda pode enxergar é a mulher do médico oftalmologista, que procura ajudar os contaminados a recuperar a humanidade perdida. Como ela mesma diz, possui“a responsabilidade de ter olhos quando os outros o perderam.”


Dentre os aspectos mais interessantes do romance estão a ausência de nomes e da localização dos personagens. Características físicas ou comportamentais são utilizadas para atribuir-lhes denominações, como “o rapazinho estrábico”, “o ladrão”, “a moça dos óculos escuros”, “o cão de lágrimas”, etc. Não sabemos onde a história ocorre, pois o foco da narrativa não se prende a lugares ou situações específicas. Trata-se de uma representação do possível retorno a um modo de vida bárbaro, sem nenhum tipo de ordem ou justiça social. O cenário da história transforma-se, aos poucos, em uma terra sem lei.


Retorno ao primitivismo


Ao espalhar-se rapidamente, a epidemia não dá indícios de onde vem e quanto tempo irá durar. Contudo, o interessante é que os acometidos pela cegueira não vêem escuridão, mas sim uma espécie de brancura leitosa, chamada de “cegueira branca”. Não demora muito para que as conseqüências de uma humanidade cada vez mais cega comecem a aparecer: ruas cheias de lixo, dejetos e cadáveres, lojas e apartamentos saqueados, grupos de pessoas tropeçando e caindo no meio da rua, reduzidas ao tato e ao olfato. Parece que estamos a ler uma história de terror, com a diferença de que ela poderia acontecer, de

fato, na vida real.


Dentro do manicômio, no qual a maior parte da narrativa se desenrola, a situação não é diferente, como explicado pelo autor no caso do médico oftalmologista: “(...) sabia que estava sujo, sujo como não se lembrava de ter estado alguma vez na vida. Há muitas maneiras de tornar-se animal, pensou, esta é só a primeira delas.” Isso porque o governo proíbe os cegos de saírem do local e também se recusa a fornecê-los qualquer tipo suporte, seja ele médico, policial ou jurídico. Como enunciado por um dos soldados responsáveis pelo policiamento do lugar, “(...) o melhor era deixá-los morrer à fome, morrendo o bicho acabava-se a peçonha.”


Aterrorizados pelo medo da contaminação, os não-cegos passam a ver os cegos como animais, e não mais como seres humanos. O desespero toma conta da população mundial e as pessoas começam a recorrer a atitudes criminosas e desumanas para se livrar do perigo do contágio. A exemplo de uma fala reflexiva de um dos personagens, “(...) já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.”


A única pessoa capaz de manter os pés no chão em um mundo repleto de caos e escassez é a mulher do médico, que se mantém imune à epidemia por razões inexplicáveis. Apesar de ter sido obrigada a fazer certas escolhas consideradas, em termos de lei, antiéticas, ela ainda consegue manter a humanidade e o discernimento necessários para não sucumbir completamente aos seus instintos mais primitivos. Essa personagem é a mais pura representação dos valores humanitários em um planeta abastado de indivíduos “cegos”, - em todos os sentidos.


Metáfora para uma humanidade sem olhos

O objetivo de Saramago não é descrever uma epidemia de origem biológica, mas sim mostrar até onde o ser humano é capaz de ir quando todos os seus limites são ultrapassados. A história inteira figura uma metáfora para a indiferença e a “cegueira” emocional e intelectual do ser humano, que o leva a cometer atos irracionais e, até mesmo, cruéis e selvagens em nome do medo e do egoísmo. O mundo torna-se um palco de luta pela sobrevivência, no qual a máxima “apenas os mais fortes sobrevivem” vira lei. O estado de calamidade ao qual a humanidade chega é conseqüência de uma sociedade insensata e individualista que se vê em um cenário livre de policiamento, prisões e júris para fazer o que bem entende. Como diz o velho ditado, também presente no livro, “(...) o pior cego foi aquele que não quis ver.”


Para resumir, “Ensaio Sobre a Cegueira” é uma obra altamente questionadora que põe em xeque a tão valorizada moral do ser humano. José Saramago faz você se perguntar o que seria capaz de fazer se estivesse em uma situação tão aterradora quanto a descrita no livro. Além disso, ele mostra como todo indivíduo é capaz de realizar feitos bondosos e altruístas, assim como ter atitudes extremamente egoístas e cruéis. De qualquer forma, “Pode ser que a humanidade venha a conseguir viver sem olhos, mas então deixará de ser humanidade.”


Por Julia P.D.

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