• Julia

Idolatria: Quando a Admiração vira Obsessão

Nesses tempos de intensa dicotomia, especialmente política, estamos acostumados a presenciar constantes embates cheios de agressões verbais nas redes sociais. Com essa onda de fanatismo que têm ficado em evidência de uns tempos para cá, veio um questionamento que parece não sair mais da minha cabeça: de onde surge a idolatria?


A própria palavra já indica seu significado: o ato de idolatrar; adular alguém ou algo de maneira incondicional, ignorando seu efeito real no mundo que nos cerca. Para o idólatra, a perfeição de seu deus é absolutamente inquestionável.


No âmbito social, já conhecemos bem as pessoas que são idolatradas. Líderes políticos e religiosos, personalidades do mundo da música, cinema, esportes, internet. Pessoas em grande evidência, mas que estamos muito distantes de conhecer de verdade. Até descobrirmos pela imprensa que desviaram dinheiro, estupraram moças ou agrediram moradores de rua. Ou mesmo, em casos consideravelmente mais leves, que furaram a quarentena para fazer uma festa com outros amigos “influencers”.


Mas o que faz com que indivíduos sejam capazes de ignorar claras evidências sobre ações questionáveis praticadas por essas personalidades? Qual é o fator que os torna tão cegos a ponto de defenderem seu “ídolo” a todo custo? Fatos são reduzidos a conspirações e meras convicções de juízes, procuradores, cientistas, especialistas e vítimas. Discordantes são agressivamente atacados e perseguidos com palavras chulas, ameaças e acusações sem sentido. Em alguns casos, sofrem até mesmo agressões físicas.


Com esses questionamentos em mente, iremos tentar esmiuçar os motivos que levam a tal comportamento, bem como a sua origem.



Admiração x Obsessão


A maioria das pessoas possui um determinado político ou celebridade preferido, seja por compartilhar das mesmas ideias, admirar o conteúdo que produzem ou pela imagem que transmitem na mídia. A admiração é algo natural e podemos usá-la de forma positiva para nos tornarmos indivíduos melhores com base em bons exemplos a serem seguidos.


No entanto, quando essa admiração parte para o lado de uma confiança cega, surda e muda, torna-se obsessão. O adorador passa a expressar ideais dogmáticos e enxergar em seu “objeto” de adoração a encarnação da sabedoria e salvação – como no caso de figuras políticas, por exemplo. Cada desvio de conduta é visto como "fake news", conspiração por parte de seus opositores ou um ato justificável por qualquer razão que seja.


A idolatria não tem gênero, idade, classe social ou nível de escolaridade definidos. Do brasileiro mais anônimo ao militante mais acadêmico, todos parecem sofrer da febre da adulação inconseqüente. Nesse estágio psicológico, há uma grande perda de racionalidade e discernimento por parte do adorador.


Origem psicológica


Para a psicologia, o fanatismo é o vínculo de admiração patológica que algumas pessoas criam com indivíduos, crenças ou até objetos inanimados. De acordo com o psicólogo Dênis Barros, esse sentimento tem origem no momento em que o admirador identifica um tipo de poder ou autoconfiança no outro que ele deseja ter para si. “As pessoas precisam concretizar os seus desejos e materializar uma representação daquilo que é abstrato. Então se meu ídolo tem autoconfiança, ele representa isso pra mim, eu concretizo nele a autoconfiança, o vejo como sinônimo daquilo. Do mesmo jeito, se ele tem fama, se ele simboliza beleza e eu, internamente desejo isso, tenho como algo subjetivo, eu começo a idolatrá-lo”, explica.


No caso, os idólatras enxergam no objeto de sua adoração uma espécie de “ser superior”, livre de erros e imperfeições. O perigo está justamente no momento em que o adorador se anula diante da figura de seu ídolo, transformando uma demonstração saudável de admiração em um sentimento doentio.


Uma das conseqüências psicológicas de uma possível “quebra” na imagem do adorador por seu ídolo, segundo o psicólogo, é um colapso emocional. Isso mostra que a subjetividade dele é influenciada pelo seu objeto de adoração de maneira nociva e fora da realidade. Com isso em mente, faz certo sentido que o idólatra se negue a reconhecer os erros de seu ídolo, mesmo que inconscientemente. Admitir essas falhas significaria a destruição da imagem que ele tem de um ser que considera perfeito, seja por incorporar, em sua visão, o ápice do poder, beleza e/ou força.


Idolatria x Influência social


Existe uma série de fatores que contribuem para o desenvolvimento do fanatismo. A separação do mundo entre categorias antagônicas, como “esquerda” e “direita” ou “cristão e “ateu” nos limita de maneira rígida a grupos que correspondem às nossas necessidades e ideais. Assim como as torcidas organizadas do Corinthians e do Palmeiras, por exemplo. Essa tendência pode favorecer o sentimento vívido de concorrência entre seus integrantes.


Outro ponto a ser ressaltado é a influência do coletivo na psique do indivíduo. Como parte de um grupo, procuramos exaltar pontos que o beneficiem, de modo a ignorar as fragilidades e tudo o que vai contra seus princípios. Com essa mentalidade, cria-se um inimigo comum a ser combatido. Esse sentimento é igualmente reforçado pela construção de narrativas para criar um vínculo emocional, como a história de Jesus Cristo no caso do cristianismo, por exemplo.


Segundo psicólogos, fazer parte de um grupo constrói a identidade social do indivíduo. Mas os que têm uma identidade social intensa abrem mão de outras referências, limitando sua percepção e reforçando as emoções que os ligam ao grupo. Ou seja, a capacidade de discernimento desse indivíduo fica limitada por seu desejo incondicional de pertencimento.


O perigo dessa mentalidade coletiva é que, com o devido incentivo, as pessoas são capazes de praticar ações em grupo que não fariam sozinhas. Sob influência do meio ou de um líder carismático, elas se juntam para lutar por benefícios comuns, sejam eles sociais, políticos ou de caráter pessoal. Não raro, partem para ações criminosas e agressões físicas contra aqueles que consideram seus inimigos.


Idolatria segundo a filosofia

O cantor R. Kelly em audiência por crimes sexuais, em março / Foto: Kamil Krzaczynski / REUTERS

Segundo Vilém Flusser, um dos filósofos mais importantes do século XX, o ser humano é tão bombardeado de informações e diferentes imagens no cotidiano que se torna incapaz de compreendê-las: “O imaginário social se encontra completamente penetrado e saturado de imagens que se multiplicam umas às outras e se espalham sem que haja a possibilidade de sua real compreensão, servindo assim a uma ideologia do obscurecimento, ou do obscurantismo, que tem como alvo manter as pretensas ‘mônadas’ [sujeitos] rigorosamente separados uns dos outros”, pondera.


Ou seja, o idólatra tem uma compreensão bastante rasa de seu objeto de adoração, restringindo-se a um nível completamente elementar. Até porque o seu objetivo não é chegar à verdade, mas sim manter a imagem imaculada que possui de seu ídolo conforme seus próprios ideais e vontades. De acordo com Flusser, “Imagens são mediações entre homem e mundo. O homem “existe”, isto é, o mundo não lhe é acessível imediatamente. Imagens têm o propósito de lhe representar o mundo. Mas, ao fazê-lo, entrepõem-se entre mundo e homem. (...) O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função de imagens. (...) Tal inversão da função das imagens é idolatria.”


Importância do pensamento crítico


A adesão cega a uma posição, doutrina ou sistema também provém de uma incapacidade de lidar com opiniões diferentes. A intolerância leva a uma cegueira causada pela crença absoluta em determinadas “verdades” e se manifesta nas mais diferentes esferas da sociedade, ameaçando a nossa liberdade e o conceito básico de democracia. Como idólatra, o sujeito rejeita a ideia de lidar com o outro, revelando uma grande inaptidão em conviver em sociedade.

Goleiro Bruno sendo preso por feminicídio / Foto: Angelo Pettinati

De acordo com o historiador Jaime Pinsky, autor do livro Faces do Fanatismo (Editora Contexto), o grande perigo das devoções extremas é a convicção inabalável e inconseqüente em seu objeto de adoração. “A certeza da verdade do fanático não é resultante de uma reflexão ou de uma dedução intelectual”, afirma o escritor. “O argumento racional faz parte do gênero humano, e o debate entre ideias diferentes é importante para que as coisas se esclareçam. Mas o limiar disso está na racionalidade: quando passa a ter dogmas, você extrapola a racionalidade e se torna um fanático.”


A aceitação de valores diferentes vem de um exercício de autocrítica, o que é muito saudável para o desenvolvimento psicológico e do senso crítico do indivíduo. Além disso, também afeta positivamente aqueles que fazem parte do seu círculo de convivência, pois eles se sentem mais respeitados e livres para expressarem suas opiniões.


Conclusão


A liberdade de expressão deve ser utilizada não somente para criticar quem ou o que consideramos como oposição, mas a nossa própria visão do mundo. Assim evitamos ser fantoches de líderes ou instituições para pensarmos de maneira independente e consciente. Prezar a racionalidade, a sensatez e a ciência em detrimento de “achismos” e informações de origem duvidosa deve ser sempre prioridade. O compromisso constante com a verdade é indispensável para a construção de uma sociedade mais justa e esclarecida – pois todos têm direito ao acesso a informações confiáveis.

Devemos parar de aceitar e apoiar pessoas, sejam elas famosas ou não, de forma incontestável. Questionar o que acontece à nossa volta é indispensável para o exercício do discernimento, o que conseqüentemente contribui para a melhora da nossa sociedade como um todo. Afinal de contas, o regime democrático nos permite expressar nossas opiniões e princípios, por isso devemos fazer uso dessa liberdade para exercitar nossa tão valiosa cidadania. Já que, como bem sabemos, a idolatria pode nos levar a caminhos muito obscuros e, possivelmente, sem volta.



Por Julia P.D.

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