• Julia

Coisa Mais Linda: Um Retrato do Machismo no Brasil

Atualizado: Jun 25

A série brasileira Coisa Mais Linda, que acaba de ter sua segunda temporada lançada na Netflix, veio para esclarecer e, acima de tudo, para ensinar. Com um elenco excepcional e personagens fortes e singulares, a história foca nas desigualdades de gênero presentes na nossa sociedade. Por se desenrolar no final dos anos 50, ela evidencia com maestria a falta de direitos das mulheres e a violência e preconceito que sofriam na época, além de abordar o racismo de maneira bastante realista. Infelizmente, muitas das situações representadas na trama podem ser transferidas para os dias de hoje.


Claro, as leis se desenvolveram durante as décadas e fomos capazes de conquistar muito mais direitos do que há 60 anos atrás. Devemos essas vitórias às sufragistas do passado, que foram presas, torturadas, assediadas e mortas apenas para que as mulheres de hoje pudessem sequer ter o direito ao voto. Graças a elas, conquistamos hoje o direito de trabalhar, estudar, de escolher com quem casar e quando ter ou não filhos, e de ser independentes ao invés de mera propriedade dos homens. No entanto, ainda temos um longo caminho a percorrer.


Série brasileira "Coisa Mais Linda"

A série aborda temas de suma importância, que afetam profundamente o gênero feminino até hoje – tais como opressão, preconceito, violência doméstica, objetificação, agressão sexual e julgamento social. Ferramentas das quais a sociedade se utiliza para inferiorizar a mulher e culpabilizá-la pelas situações de violência que é obrigada a enfrentar. Com essa desculpa, milhares de vozes já foram caladas ao longo da história da humanidade.


Como grande apreciadora do cinema nacional, fiquei muito encantada com a série, que veio apenas para escancarar a qualidade da produção brasileira. Por isso, decidi usar esse espaço para fazer algumas reflexões sobre os temas abordados na história, focando nos exemplos principais da série.


Malu, Ligia, Thereza e Adélia – histórias realistas de mulheres exemplares


Podemos considerar as personagens principais um quarteto fantástico, pois elas nos presenteiam com inúmeros ensinamentos sobre as relações humanas. Para abordar os tópicos mencionados acima, iremos usá-las como exemplo para ilustrar os preconceitos presentes no dia a dia.


A paulistana Malu (Maria Casadevall) é uma mulher jovem, casada e com um filho, que decide se mudar para o Rio de Janeiro e abrir um restaurante com o marido. No entanto, um belo dia, ele resolve fugir com todo o seu dinheiro. Felizmente, ela consegue firmar uma sociedade com Adélia e abrir um “clube de música” chamado Coisa Mais Linda. O novo negócio é erguido com muito esforço e acaba sendo um grande sucesso.


Após algum tempo, o marido de Malu resolve reaparecer e impor a sua presença na vida dela novamente. Quando a jovem decide se divorciar, ele a ameaça e decide fechar o clube de música que ela levantou do zero com tanto suor, pois mulheres não tinham direito à propriedade naquela época. Ou seja, o Coisa Mais Linda pertencia oficialmente ao seu marido aos olhos da lei, o que a impossibilitava de tomar qualquer decisão em relação ao seu próprio empreendimento.


Violência doméstica e impunidade

A personagem Ligia (Fernanda Vasconcellos) sofre um relacionamento abusivo com o marido, que a agride verbalmente, fisicamente e sexualmente. Além de tudo, após ela finalmente se encontrar como cantora no novo clube, ele tenta podá-la de todas as formas possíveis. Afinal de contas, mulheres não podem se expor, ter um trabalho e fazer o que bem entendem, não é?


Apesar de tentar esconder a realidade que vive em casa, muitas pessoas sabem da violência, porém não reagem e nem reportam o caso à polícia.


Como já era de se esperar, em um determinado momento, o marido tem um surto e assassina Ligia em frente a todos os amigos dela. Acho que nem preciso dizer como essa história termina, não é? Ele sai impune, pois sua mulher “o traía, era promíscua e não o obedecia”, por isso ele se descontrolou. Para resumir, a culpa era da moça, pois ele sempre foi considerado um “homem e marido exemplar” perante a sociedade.


As batalhas da mulher negra


Adélia (Pathy Dejesus) é uma jovem negra, moradora de favela, que luta todos os dias para proporcionar uma vida melhor à sua filha. Apesar de viver à margem da sociedade, finalmente consegue abrir o próprio “clube de música” com a amiga Malu, que prospera em muito pouco tempo. No entanto, ela continua a ser tratada pelos brancos (especialmente homens) como faxineira do local ao invés de sócia.


Outra situação recorrente na vida de Adélia é o racismo em espaços públicos. Logo que se muda para um bairro de prestígio na zona sul do Rio de Janeiro, vira alvo de preconceito dos moradores locais. Afinal de contas, uma mulher negra não tem nada o que fazer lá, certo? Além disso, é repreendida por utilizar o elevador social com a filha no próprio prédio em que reside.


Com esse exemplo fica evidente que, embora a mulher branca sofra preconceito de gênero, a mulher negra sofre um preconceito duplo - de gênero e racial.


O que devemos fazer para melhorar?


Devemos seguir o exemplo dessas quatro mulheres para tornar o espaço público e pessoal um local mais respeitoso e acolhedor para todas nós. Com uma relação baseada na honestidade e sororidade (aliança e companheirismo entre mulheres) acima de tudo, essas fortes personagens nos mostram como é importante escolher suas batalhas e não aceitar desrespeito e preconceito de ninguém.


Portanto, nós deveríamos questionar o que vemos e ouvimos no nosso cotidiano, mesmo (e especialmente) se forem situações consideradas normais pela maioria. Vários comportamentos nocivos são normalizados justamente porque muitas pessoas perpetuam os mesmos preconceitos e muitos não têm coragem de enfrentá-las. Eles podem vir na forma de comentários sobre sexualidade, aparência, comportamento, piadinhas, entre muitos outros. Cabe a cada um de nós (inclusive a vocês, homens) combatê-los para podermos desconstruir esse machismo tão enraizado em nossa sociedade.


Como bem disse a escritora australiana Dale Spender, autora do livro Man Made Language: "O feminismo não declarou guerras. Não matou oponentes. Não montou campos de concentração, não fez inimigos passarem fome, não praticou crueldades. Suas batalhas foram pela educação, pelo voto, por melhores condições de trabalho, pela segurança nas ruas, por creches, pela assistência social, por centros de apoio a vítimas de estupro, abrigos para mulheres, mudanças nas leis. Se alguém me diz 'Ah, eu não sou feminista' eu pergunto 'Por que?'"


Por Julia P.D.

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