Nesses tempos de intensa dicotomia, especialmente política, estamos acostumados a presenciar constantes embates cheios de agressões verbais nas redes sociais. Com essa onda de fanatismo que têm ficado em evidência de uns tempos para cá, veio um questionamento que parece não sair mais da minha cabeça: de onde surge a idolatria?


A própria palavra já indica seu significado: o ato de idolatrar; adular alguém ou algo de maneira incondicional, ignorando seu efeito real no mundo que nos cerca. Para o idólatra, a perfeição de seu deus é absolutamente inquestionável.


No âmbito social, já conhecemos bem as pessoas que são idolatradas. Líderes políticos e religiosos, personalidades do mundo da música, cinema, esportes, internet. Pessoas em grande evidência, mas que estamos muito distantes de conhecer de verdade. Até descobrirmos pela imprensa que desviaram dinheiro, estupraram moças ou agrediram moradores de rua. Ou mesmo, em casos consideravelmente mais leves, que furaram a quarentena para fazer uma festa com outros amigos “influencers”.


Mas o que faz com que indivíduos sejam capazes de ignorar claras evidências sobre ações questionáveis praticadas por essas personalidades? Qual é o fator que os torna tão cegos a ponto de defenderem seu “ídolo” a todo custo? Fatos são reduzidos a conspirações e meras convicções de juízes, procuradores, cientistas, especialistas e vítimas. Discordantes são agressivamente atacados e perseguidos com palavras chulas, ameaças e acusações sem sentido. Em alguns casos, sofrem até mesmo agressões físicas.


Com esses questionamentos em mente, iremos tentar esmiuçar os motivos que levam a tal comportamento, bem como a sua origem.



Admiração x Obsessão


A maioria das pessoas possui um determinado político ou celebridade preferido, seja por compartilhar das mesmas ideias, admirar o conteúdo que produzem ou pela imagem que transmitem na mídia. A admiração é algo natural e podemos usá-la de forma positiva para nos tornarmos indivíduos melhores com base em bons exemplos a serem seguidos.


No entanto, quando essa admiração parte para o lado de uma confiança cega, surda e muda, torna-se obsessão. O adorador passa a expressar ideais dogmáticos e enxergar em seu “objeto” de adoração a encarnação da sabedoria e salvação – como no caso de figuras políticas, por exemplo. Cada desvio de conduta é visto como "fake news", conspiração por parte de seus opositores ou um ato justificável por qualquer razão que seja.


A idolatria não tem gênero, idade, classe social ou nível de escolaridade definidos. Do brasileiro mais anônimo ao militante mais acadêmico, todos parecem sofrer da febre da adulação inconseqüente. Nesse estágio psicológico, há uma grande perda de racionalidade e discernimento por parte do adorador.


Origem psicológica


Para a psicologia, o fanatismo é o vínculo de admiração patológica que algumas pessoas criam com indivíduos, crenças ou até objetos inanimados. De acordo com o psicólogo Dênis Barros, esse sentimento tem origem no momento em que o admirador identifica um tipo de poder ou autoconfiança no outro que ele deseja ter para si. “As pessoas precisam concretizar os seus desejos e materializar uma representação daquilo que é abstrato. Então se meu ídolo tem autoconfiança, ele representa isso pra mim, eu concretizo nele a autoconfiança, o vejo como sinônimo daquilo. Do mesmo jeito, se ele tem fama, se ele simboliza beleza e eu, internamente desejo isso, tenho como algo subjetivo, eu começo a idolatrá-lo”, explica.


No caso, os idólatras enxergam no objeto de sua adoração uma espécie de “ser superior”, livre de erros e imperfeições. O perigo está justamente no momento em que o adorador se anula diante da figura de seu ídolo, transformando uma demonstração saudável de admiração em um sentimento doentio.


Uma das conseqüências psicológicas de uma possível “quebra” na imagem do adorador por seu ídolo, segundo o psicólogo, é um colapso emocional. Isso mostra que a subjetividade dele é influenciada pelo seu objeto de adoração de maneira nociva e fora da realidade. Com isso em mente, faz certo sentido que o idólatra se negue a reconhecer os erros de seu ídolo, mesmo que inconscientemente. Admitir essas falhas significaria a destruição da imagem que ele tem de um ser que considera perfeito, seja por incorporar, em sua visão, o ápice do poder, beleza e/ou força.


Idolatria x Influência social


Existe uma série de fatores que contribuem para o desenvolvimento do fanatismo. A separação do mundo entre categorias antagônicas, como “esquerda” e “direita” ou “cristão e “ateu” nos limita de maneira rígida a grupos que correspondem às nossas necessidades e ideais. Assim como as torcidas organizadas do Corinthians e do Palmeiras, por exemplo. Essa tendência pode favorecer o sentimento vívido de concorrência entre seus integrantes.


Outro ponto a ser ressaltado é a influência do coletivo na psique do indivíduo. Como parte de um grupo, procuramos exaltar pontos que o beneficiem, de modo a ignorar as fragilidades e tudo o que vai contra seus princípios. Com essa mentalidade, cria-se um inimigo comum a ser combatido. Esse sentimento é igualmente reforçado pela construção de narrativas para criar um vínculo emocional, como a história de Jesus Cristo no caso do cristianismo, por exemplo.


Segundo psicólogos, fazer parte de um grupo constrói a identidade social do indivíduo. Mas os que têm uma identidade social intensa abrem mão de outras referências, limitando sua percepção e reforçando as emoções que os ligam ao grupo. Ou seja, a capacidade de discernimento desse indivíduo fica limitada por seu desejo incondicional de pertencimento.


O perigo dessa mentalidade coletiva é que, com o devido incentivo, as pessoas são capazes de praticar ações em grupo que não fariam sozinhas. Sob influência do meio ou de um líder carismático, elas se juntam para lutar por benefícios comuns, sejam eles sociais, políticos ou de caráter pessoal. Não raro, partem para ações criminosas e agressões físicas contra aqueles que consideram seus inimigos.


Idolatria segundo a filosofia

O cantor R. Kelly em audiência por crimes sexuais, em março / Foto: Kamil Krzaczynski / REUTERS

Segundo Vilém Flusser, um dos filósofos mais importantes do século XX, o ser humano é tão bombardeado de informações e diferentes imagens no cotidiano que se torna incapaz de compreendê-las: “O imaginário social se encontra completamente penetrado e saturado de imagens que se multiplicam umas às outras e se espalham sem que haja a possibilidade de sua real compreensão, servindo assim a uma ideologia do obscurecimento, ou do obscurantismo, que tem como alvo manter as pretensas ‘mônadas’ [sujeitos] rigorosamente separados uns dos outros”, pondera.


Ou seja, o idólatra tem uma compreensão bastante rasa de seu objeto de adoração, restringindo-se a um nível completamente elementar. Até porque o seu objetivo não é chegar à verdade, mas sim manter a imagem imaculada que possui de seu ídolo conforme seus próprios ideais e vontades. De acordo com Flusser, “Imagens são mediações entre homem e mundo. O homem “existe”, isto é, o mundo não lhe é acessível imediatamente. Imagens têm o propósito de lhe representar o mundo. Mas, ao fazê-lo, entrepõem-se entre mundo e homem. (...) O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função de imagens. (...) Tal inversão da função das imagens é idolatria.”


Importância do pensamento crítico


A adesão cega a uma posição, doutrina ou sistema também provém de uma incapacidade de lidar com opiniões diferentes. A intolerância leva a uma cegueira causada pela crença absoluta em determinadas “verdades” e se manifesta nas mais diferentes esferas da sociedade, ameaçando a nossa liberdade e o conceito básico de democracia. Como idólatra, o sujeito rejeita a ideia de lidar com o outro, revelando uma grande inaptidão em conviver em sociedade.

Goleiro Bruno sendo preso por feminicídio / Foto: Angelo Pettinati

De acordo com o historiador Jaime Pinsky, autor do livro Faces do Fanatismo (Editora Contexto), o grande perigo das devoções extremas é a convicção inabalável e inconseqüente em seu objeto de adoração. “A certeza da verdade do fanático não é resultante de uma reflexão ou de uma dedução intelectual”, afirma o escritor. “O argumento racional faz parte do gênero humano, e o debate entre ideias diferentes é importante para que as coisas se esclareçam. Mas o limiar disso está na racionalidade: quando passa a ter dogmas, você extrapola a racionalidade e se torna um fanático.”


A aceitação de valores diferentes vem de um exercício de autocrítica, o que é muito saudável para o desenvolvimento psicológico e do senso crítico do indivíduo. Além disso, também afeta positivamente aqueles que fazem parte do seu círculo de convivência, pois eles se sentem mais respeitados e livres para expressarem suas opiniões.


Conclusão


A liberdade de expressão deve ser utilizada não somente para criticar quem ou o que consideramos como oposição, mas a nossa própria visão do mundo. Assim evitamos ser fantoches de líderes ou instituições para pensarmos de maneira independente e consciente. Prezar a racionalidade, a sensatez e a ciência em detrimento de “achismos” e informações de origem duvidosa deve ser sempre prioridade. O compromisso constante com a verdade é indispensável para a construção de uma sociedade mais justa e esclarecida – pois todos têm direito ao acesso a informações confiáveis.

Devemos parar de aceitar e apoiar pessoas, sejam elas famosas ou não, de forma incontestável. Questionar o que acontece à nossa volta é indispensável para o exercício do discernimento, o que conseqüentemente contribui para a melhora da nossa sociedade como um todo. Afinal de contas, o regime democrático nos permite expressar nossas opiniões e princípios, por isso devemos fazer uso dessa liberdade para exercitar nossa tão valiosa cidadania. Já que, como bem sabemos, a idolatria pode nos levar a caminhos muito obscuros e, possivelmente, sem volta.



Por Julia P.D.

Atualizado: Mar 5

Resolvi criar esse post, pois me sinto na obrigação de compartilhar com as pessoas o rico mundo do veganismo que descobri na cidade de São Paulo. Sim, sempre fui uma paulistana nata, porém morei durante quatro anos e meio fora do Brasil e fiquei por fora da expansão vegana que aconteceu por aqui. No entanto, após estar há um ano e meio de volta e por ser uma Magali desde o berço, já posso dizer que explorei muitas opções pela metrópole.


Sou vegana há mais de três anos e não como carne há mais de sete, por isso tenho tanto interesse no tema. Apesar de o veganismo ser comprovadamente ótimo para a saúde, para o meio ambiente e os animais, ele não se limita somente a isso – também pode oferecer uma riquíssima variedade de todos os tipos de alimentos e pratos que você jamais poderia imaginar. A fim de compartilhar com vocês a minha profunda alegria em relação ao mundo vegano em que vivo, segue uma lista dos melhores restaurantes de SP de acordo com a minha opinião pessoal*:


Lar Vegan

Conhecido como um dos restaurantes veganos mais tradicionais da cidade, tendo sido pioneiro no ramo, o Lar Vegan encanta por sua dedicação à causa e pela comida de dar água na boca. Além de oferecer um buffet completo de almoço todos os dias, o qual inclui diversos pratos quentes e frios, também realiza noites temáticas e rodízios deliciosos de pizza. Atrações como bingo, sala de jogos, aulas de yoga e de dança também fazem parte do local. Não dá para ficar entediado!


Minha recomendação: As noites de pizza são absolutamente incríveis, vale muito a pena conhecer.


R. Clélia, 278 - Perdizes, São Paulo - SP

Insta: @larvegan


Fratelli Basilico Pizza Vegana

Essa incrível pizzaria estritamente vegana abriu há um ano e meio no bairro do Brooklin em São Paulo, e tem prosperado desde então - tanto que acaba de mudar para um local maior em Moema. Ela oferece pizzas artesanais nos mais variados sabores, somente com ingredientes da mais alta qualidade. Opções é que não faltam: há desde aquelas de queijo vegetal e carne de jaca, até as de banana com chocolate. Fora as pizzas de berinjela e nozes, quatro queijos, marguerita, entre muitas outras para agradar até o mais exigente dos paladares.


Minha recomendação: Pizza Verona, a qual consiste em requecream vegano, pepperoni vegano (feito de feijão fradinho) e molho de tomate. É a máxima explosão de sabores, vale muito a pena conferir.


Av. Cotovia, 432 - Indianópolis, São Paulo – SP https://fratellibasilico.com.br/ Insta: @fratellibasilico Dona Augusta

Essa lanchonete 100% vegana é o ápice da alimentação à base de plantas na região central da cidade. Com um ambiente simples, repleto especialmente de jovens frequentadores da região central da cidade, é um local que oferece comida incrivelmente saborosa por um preço difícil de bater. Lá você encontra sanduíches, hambúrgueres, os mais variados tipos de salgados, doces e milk shakes de cair o queixo.


Minha recomendação: O Hot Not Dog com uma porção de onion rings e um milk shake de chocolate. A combinação é imbatível!


R. Augusta, 1112 - Bela Vista, São Paulo – SP Insta: @donaaugusta


Recanto Vegetariano

O tradicional recanto já existe há quase três décadas e vem expandindo desde então. Munido de um enorme e delicioso buffet com uma absurda variedade de pratos veganos e vegetarianos, o local atrai todos os tipos de públicos no Brooklin Paulista. Uma de suas características principais é a origem dos alimentos servidos: a maioria são plantados e colhidos em uma fazenda orgânica gerida por seus próprios donos. Trata-se de um lugar imperdível para almoçar com amigos e família!


Minha recomendação: o mix de legumes orientais, quibe de trigo, nhoque e bolo de chocolate vegano. São indispensáveis!


R. Flórida, 1442 - Cidade Monções, São Paulo – SP http://recantovegetariano.com.br/ Insta: @recantovegetarianooficial


Maha Mantra

O pequeno e aconchegante restaurante foca especialmente em uma alimentação mais saudável. Localizado na Vila Madalena, oferece um buffet com menos opções, porém com pratos de alta qualidade e sabor. Além de atrair um público bastante variado, também conta com uma lojinha na entrada do estabelecimento com diversos produtos naturais e veganos.


Minha recomendação: Espaguete de abobrinha, trouxinhas de curry e nhoque vegano - o último tão inesquecível, que fica difícil não voltar para provar novamente.


R. Fradique Coutinho, 766 - Vila Madalena, São Paulo – SP Insta: @maha_mantra


Padoca Vegan

A estilosa e excepcional padaria paulistana oferece todos os quitutes e lanches mais amados pelo público brasileiro, porém na versão vegana. Lá você encontra pão na chapa, bruschetta, coxinha de jaca e de palmito, empada, pão de beijo (que é o pão de queijo vegano), sanduíches, sonhos, bolos, enroladinho, etc. e até alguns pratos quentes. As opções são infinitas e não deixam nem um pouco a desejar em termos de sabor e qualidade. Além de tudo, possui preços imbatíveis.


Minha recomendação: pão na chapa com requeijão vegano, coxinha de palmito, bolo de fubá com goiabada e sonho. Não dá para não sair rolando de lá.


Rua Harmonia, 1275 - Sumarezinho, São Paulo – SP Insta: @padocavegan


Salad Days

Localizada em um discreto sobrado no bairro residencial da Vila Mariana, essa hamburgueria vegana oferece muito mais do que parece à primeira vista. O cardápio é mais limitado, porém a comida é feita artesanalmente por uma equipe dedicada e deixa aquele gostinho de quero mais. Entre as principais opções estão hambúrgueres, hot dog, petiscos e duas opções de doce por noite.


Minha recomendação: Hambúrguer de brócolis com alho poró, que acompanha alface, tomate, queijo vegetal e onion rings. A combinação de sabores é incrível!


R. Machado de Assis, 284 - Vila Mariana, São Paulo – SP Insta: @saladdaysvegan


Top Vegan Music Bar

Esse restaurante espetacular foi inaugurado há apenas alguns meses e está localizado há menos de uma quadra do Conjunto Nacional na Avenida Paulista. Ao adentrar uma discreta portinha ao lado da loja do Boticário, você encontra um buffet de comidas veganas da mais alta qualidade. Pelo preço de apenas R$ 16,90, você pode se deliciar à vontade com as mais variadas opções de saladas e legumes, sushi, massas, arroz integral, lasanha de abobrinha, kibe de trigo, sopa, batatas e os mais diversos pratos quentes e frios.


Minha recomendação: Lasanha de abobrinha com soja, nhoque, batatas de forno e almôndegas. São de cair o queixo!


Rua Augusta, 1928 – Cerqueira César – São Paulo-SP


Pop Vegan Food

Esse restaurante vegano recém-reformado oferece um buffet de almoço durante o dia e um cardápio de deliciosas pizzas à noite. Localizado em uma travessa da Rua Augusta, tornou-se um point para um público especialmente jovem que frequenta a região. Com o preço de R$ 10,00 toda segunda-feira em comemoração à segunda sem carne, conquistou mais adeptos do que nunca.


Minha recomendação: A pizza de peperoni com bordas recheadas. Ela consiste em molho de tomate fresco, catupop, rodelas de linguiça temperoni (pepperoni vegano à base de tempê de feijão fradinho), orégano e azeitona preta.


R. Fernando de Albuquerque, 142/144 - Consolação, São Paulo – SP http://popveganfood.com.br Insta: @popveganfood


Espero que tenham gostado das dicas. A grande maioria desses estabelecimentos também oferece delivery e vende produtos prontos ou congelados no próprio local. Aproveitem e deliciem-se!


*nesse post, me limitei a mencionar os restaurantes e lanchonetes 100% vegetarianos/veganos. Em outra ocasião, mencionarei os que oferecem boas opções veganas, apesar de não serem especializados nesse ramo.

Atualizado: 28 de Dez de 2019

Nos dias de hoje, a maioria de nós já ouviu falar em inteligência emocional. No século XXI, esse termo tornou-se uma característica indispensável em muitas áreas da vida, inclusive no meio corporativo. Mas o que significa esse conceito? Trata-se de uma ideia relacionada à inteligência social, criada pelo psicólogo estaduniense Daniel Goleman. Ela divide-se entre autoconhecimento emocional, controle emocional, automotivação, empatia e desenvolvimento de relacionamentos interpessoais – um conjunto de aptidões essenciais para sermos capazes de navegar pelos obstáculos da vida de maneira saudável. Apesar dos inúmeros desafios que precisamos enfrentar diariamente, inclusive sob o viés de expectativas e cobranças constantes, podemos aprender a lidar melhor com os percalços que aparecem. Ao sabermos reconhecer e administrar nossas próprias emoções, além de conseguirmos reconhecer as das outras pessoas, seremos capazes de levar uma vida mais consciente.

De acordo com os estudos científicos mencionados por Goleman, além dos benefícios que a inteligência emocional traz às nossas vidas pessoais, ela também tem um impacto positivo em nossa performance acadêmica: “Agora é possível afirmar cientificamente: ajudar as crianças a aperfeiçoar sua autoconsciência e confiança, controlar suas emoções e impulsos perturbadores e aumentar sua empatia, resulta não só em um melhor comportamento, mas também em uma melhoria considerável no desempenho acadêmico.” Isso porque elas adquirem maior capacidade de concentração, raciocínio e confiança para estudar, o que facilita a absorção de novas informações e conhecimentos.


Além disso, já foi comprovado que essa competência é essencial para o cultivo de um cotidiano com menos conflitos, frustrações e inseguranças. Qualquer relação interpessoal – seja ela com a família, amigos, parceiro(a)(s), chefes ou colegas de trabalho – necessita desse tipo de inteligência para melhorar tanto sua qualidade, como sua durabilidade no geral. Como Goleman afirma: “Entre os talentos emocionais estão: autoconsciência; identificar, expressar e controlar sentimentos; controle de impulso; e controlar tensão e ansiedade. (...) Muitas aptidões são interpessoais: interpretar sinais sociais e emocionais, ouvir, ser capaz de resistir a influências negativas, considerar as perspectivas dos outros e compreender qual comportamento é aceitável numa determinada situação.”


Ou seja, estamos falando de habilidades aplicáveis em qualquer tipo de circunstância. Seja na hora de expressar chateação a um amigo, resolver um conflito com o chefe, vender um produto a um cliente ou terminar um relacionamento amoroso. Sim, tratam-se de situações muito delicadas. Mas considerar os sentimentos e necessidades do outro, expressar nossa opinião de maneira assertiva e respeitosa e controlar impulsos emocionais nocivos são elementos vitais para o exercício da inteligência emocional. Basicamente, ela nos ensina a lidar com os outros e com nós mesmos de maneira justa e saudável. Afinal de contas, a vida é cheia de altos e baixos e somos regularmente confrontados com situações que requerem, no mínimo, certa dose de cuidado e reflexão.

Claro, não existe fórmula mágica para ter bons relacionamentos com todos que cruzam o nosso caminho – afinal de contas, as pessoas são diferentes e não podemos controlar as atitudes dos outros. Além disso, cada um tem sua personalidade e suas preferências. Mas podemos, de fato, melhorar certos aspectos do nosso dia a dia aplicando as aptidões mencionadas acima, conforme nossas possibilidades.


Por que precisamos de inteligência emocional?


Todo ser humano se depara com diversos desafios ao longo dos anos, sejam eles relacionados à família, ao amor, à carreira, à falta de segurança, a doenças físicas e psíquicas, à perda de entes queridos, etc. Essas situações fazem parte da nossa existência, e não podemos evitá-las – portanto, o que nos resta é nos esforçarmos para lidar com elas da melhor maneira possível. Além de tudo, também devemos tomar cuidado para não deixar marcas negativas e duradouras em outras pessoas. Afinal de contas, nossas ações afetam aqueles que estão à nossa volta, por isso devemos aprender a refletir e agir com cautela em certas ocasiões.


A inteligência emocional também está intimamente ligada à personalidade e ao caráter de uma pessoa. Ela sabe conviver em sociedade, respeitar as diferenças, não ultrapassar limites, avaliar qual comportamento é adequado em uma determinada situação e, acima de tudo, ter empatia pelos outros? Além disso, ela sabe dizer não em situações de risco, se impor frente a injustiças e debater de maneira construtiva, quando considerar necessário? Outras características – tais como a honestidade e a humildade – são importantíssimas para o exercício dessas habilidades. Seus benefícios são incontáveis: maior equilíbrio emocional, diminuição de estresse e ansiedade, maior clareza nos objetivos, aumento de produtividade, aumento de autoestima, maior realização pessoal, entre outros.


Ou seja, se todos trabalharmos para desenvolvê-las, poderemos criar uma sociedade cada vez mais consciente, empática e favorável para todos. Mas, para colher esses benefícios, devemos praticar o autoconhecimento, a reflexão e a compreensão das dificuldades dos nossos semelhantes. De fato, não é fácil trabalhar características como essas - o ser humano é feito de fases, emoções, experiências, qualidades e defeitos - por isso não devemos levar todos esses conceitos à risca. Essas vivências fazem parte da nossa existência, e também tornam nossas vidas mais coloridas. Sentir e expressar emoções não é negativo em si, pelo contrário: em diversas ocasiões, pode ser algo muito bom. No entanto, não podemos esquecer nosso espírito comunitário, como descrito por Goleman:


“Nos países desenvolvidos, a tendência é para um individualismo exacerbado, o que acarreta, conseqüentemente, uma competitividade cada vez maior – isso pode ser constatado nos postos de trabalho e no meio universitário. Essa visão de mundo traz consigo o isolamento e a deterioração das relações sociais. A lenta desintegração da vida em comunidade e a necessidade de auto-afirmação estão acontecendo, paradoxalmente, num momento em que as pressões econômico-sociais estão a exigir maior cooperação e envolvimento entre os indivíduos.”


Inteligência emocional & problemas sociais


A falta de inteligência emocional está relacionada, acima de tudo, a diversos problemas sociais que nos assolam há décadas. Isso porque ela não está apenas ligada a questões de cunho social, mas também à resiliência e força psíquica de um indivíduo. A partir do momento em que somos capazes de lidar de forma madura e saudável com os incontáveis desafios que inevitavelmente cruzarão o nosso caminho, mais nos sentiremos confiantes e conscientes em relação à nossa própria realidade. Com o suporte de inúmeros estudos, Daniel Goleman chega exatamente ao cerne da questão:


“Na última década, mais ou menos, proclamaram-se ‘guerras’, sucessivamente, à gravidez na adolescência, à evasão escolar, às drogas e, mais recentemente, à violência. O problema dessas campanhas, porém, é que chegam tarde demais, depois que o problema visado já atingiu proporções epidêmicas e deitou firmes raízes na vida dos jovens. São intervenções em crises, o que equivale a enviar ambulâncias para o resgate, em vez de dar uma vacina que previna a doença.”

Para ele, o ideal seria ensinar nossas crianças e jovens a encararem situações difíceis de maneira construtiva, a fim de preservarem a própria saúde psicológica e a dignidade dos envolvidos. Desse modo, diversos problemas futuros poderiam ser evitados já nos primeiros anos de vida, pois o jovem cresceria mais fortalecido para enfrentar os obstáculos que viessem à frente. Além disso, a capacidade de resistir a influências negativas e de criar o próprio caminho é um ótimo recurso para desviá-los de um futuro possivelmente criminoso ou nocivo. Como excelentemente descrito por Christina Berndt, autora do livro Resiliência: O Segredo da Força Psíquica, “É possível que crianças fortes tenham mais coragem de romper com modelos impostos e de seguir suas próprias concepções.”


Goleman analisou diversos programas escolares direcionados ao desenvolvimento da inteligência emocional em crianças e jovens – especialmente àqueles em situação de risco – e chegou à conclusão de que eles fazem uma grande diferença na saúde psíquica dos alunos a longo prazo: “Além das vantagens educacionais, os cursos de inteligência emocional parecem ajudar as crianças a melhor desempenhar seus papéis na vida, tornando-se melhores amigos, alunos, filhos e filhas – e no futuro têm mais probabilidade de serem melhores maridos e esposas, trabalhadores e chefes, pais e cidadãos.”


Além disso, para ele, toda escola deveria dedicar-se ao ensinamento de inteligência emocional, visto que ela é essencial durante o período de desenvolvimento de um indivíduo:


“Como a vida em família não mais proporciona a crescentes números de crianças uma base segura na vida, as escolas permanecem como o único lugar a que a comunidade pode recorrer em busca de corretivos para as deficiências da garotada em competência emocional e social. Isso não quer dizer que as escolas, sozinhas, possam substituir todas as instituições sociais que muitas vezes já estão ou se aproximam do colapso. Mas, como praticamente toda criança vai à escola (pelo menos no início), este é um lugar que pode proporcionar às crianças os ensinamentos básicos para a vida que talvez elas não recebam nunca em outra parte.”


Porque o QI não define o sucesso


A ideia de que o QI de uma pessoa define seu grau de sucesso e prosperidade no futuro já foi desbancado há muitos anos. Isso porque esse conceito desconsidera o fato de haverem vários tipos de inteligência diferentes, como devidamente estudado e comprovado pelo psicólogo Howard Gardner. Entre os diferentes tipos constam as inteligências lógico-matemática, lingüística, musical, naturalística, corporal-cinestésica, espacial, interpessoal e intrapessoal. Ou melhor, a inteligência emocional também faz parte das principais competências de um indivíduo, especialmente ao considerarmos as habilidades inter e intrapessoais:


“É esse o problema: a inteligência acadêmica não oferece praticamente nenhum preparo para o torvelinho – ou para a oportunidade – que ocorre na vida. Apesar de um alto QI não ser nenhuma garantia de prosperidade, prestígio ou felicidade na vida, nossas escolas e nossa cultura privilegiam a aptidão no nível acadêmico, ignorando a inteligência emocional, um conjunto de traços – alguns chamariam de caráter – que também exerce um papel importante em nosso destino pessoal.” (Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária Que Redefine o Que é Ser Inteligente, de Daniel Goleman)


Segundo Goleman, o QI contribui com cerca de 20% para os fatores que determinam o sucesso na vida, o que deixa os outros 80% restantes por conta de outras variáveis. Dentre essas variáveis estão aspectos como classe social, inteligência emocional, sorte, entre outros não especificados. Dessa maneira, ele desbanca o mito de que a inteligência lógica (QI) é o único parâmetro para medir as capacidades intelectuais de um indivíduo.


Podemos aprender a ter inteligência emocional?


Sim, até mesmo os adultos com dificuldades nessa área podem aprender a desenvolver inteligência emocional. Para resumir, ela baseia-se na capacidade de superar crises durante a vida, utilizando suas competências pessoais e sociais para aproveitá-las tanto como parte de seu desenvolvimento pessoal, como do de outras pessoas. Além disso, já foi comprovado que é possível combater tendências genéticas e reformular hábitos profundamente arraigados que adquirimos ao longo dos anos, como evidenciado no livro Inteligência Emocional: A Teoria Revolucionária Que Redefine o Que é Ser Inteligente: “Como observam os geneticistas comportamentais, os genes, por si só, não determinam o comportamento; o ambiente em que vivemos, sobretudo quando experimentamos e aprendemos enquanto crescemos, molda a maneira de uma predisposição temperamental manifestar-se no desenrolar da vida.”


Para resumir, se você deseja melhorar sua qualidade de vida, se dedicar ao desenvolvimento das aptidões mencionadas ao longo desse texto é a melhor opção. Seja ao ler livros, pesquisar, dividir experiências com pessoas ou fazer cursos, você poderá exercitar o que há de melhor em você. Consultar um psicólogo ou frequentar cursos de coaching – assim como diversas palestras ligadas ao tema – também é uma ótima alternativa.

De qualquer maneira, existem passos que podemos seguir para melhorar essa habilidade – prestar atenção em nossas emoções, tentar reduzir sentimentos negativos, enfrentar nossos problemas de maneira assertiva, praticar a empatia e estabelecer nossas prioridades estão entre as melhores alternativas. Esses exercícios servem para nos dar mais controle sobre nossas emoções, sem que nos deixemos dominar por elas em situações críticas. Afinal de contas, a ideia é preservar nossa saúde psíquica, e não eliminar os sentimentos da nossa vida. Eles são, em boas medidas, vitais para o nosso desenvolvimento.


Não podemos ser ingênuos e acreditar que existem pessoas com uma inteligência emocional perfeita, pois nenhum ser humano atinge a perfeição. Cada um de nós trava uma luta diária contra os percalços da vida dentro de nossas próprias possibilidades, e cada um tem seus pontos fortes e seus pontos fracos. Além disso, como mencionado acima, o ambiente e a genética são grandes influências na definição dessas características em um indivíduo. Mas podemos, sim, tentar aperfeiçoar essas competências no nosso cotidiano, pois o ser humano tem grande capacidade de mudança e desenvolvimento. Como diz Goleman: “A aprendizagem emocional é para toda a vida.”


Por Julia P.D.

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